a criação de adão

A Psicologia Espírita e as necessidades educacionais do século XXI – um pouco sobre a história da fundação do NEPT

Por Ludmila Nogueira.

Para iniciar essa pequena reflexão em torno da Psicologia Espírita e das necessidades educacionais do século XXI, narro um pouco de minha história escolar. Este curto percurso narrativo que proponho acaba por caracterizar e contextualizar o nosso atual sistema educacional, mesmo que pela minha perspectiva subjetiva de aluna. Além do mais, relata, igualmente, traços da história e das razões de fundação do NEPT (Núcleo de Estudos e Práticas Transdisciplinares Joanna de Ângelis).

Desde criança, mergulhei no oceano de conhecimentos advindos do contato com educadores e livros espíritas. A ciência espírita permite navegar pelas várias áreas do conhecimento. O próprio aspecto trino da doutrina, de ciência, de filosofia e de religião, revela a preocupação da equipe do Espírito de Verdade de abranger a razão da ciência, a sabedoria da filosofia e o transcendente da religião. Assim sendo, me foi possível ter contato e despertar o interesse  pelo estudo da Psicologia e Pedagogia pelos viés espírita.

A minha trajetória escolar também motivou a busca destes conhecimentos à luz do Espiritismo. No Ensino Fundamental e Médio, testemunhei o desafio dos educadores tentando ministrar aulas. Presenciava com frequência o sofrimento de meus professores para tentar dar aula para mais de 35 alunos exprimidos em uma sala minúscula. Alguns sem interesse, outros totalmente indisciplinados, além daqueles que possuíam dificuldades de aprendizagem.

Houve vezes, no Ensino Médio, em que me refugiava no banheiro da escola para orar, pois já com as minhas percepções mediúnicas percebia o ambiente material e espiritual desequilibrado em que estava, que mais parecia uma clínica de tratamento de indivíduos perturbados espiritualmente e mentalmente, ao invés de uma atmosfera de estudo.

Foi nessa época em que me interessei pela Psicologia Espírita. Os livros de Manuel Philomeno de Miranda, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, tornaram-se meu consolo e esclarecimento. Passei a ter outra visão da atmosfera escolar, inclusive com a ajuda de uma professora que tinha esclarecimento espírita, fizemos alguns projetos para melhorar o ambiente espiritual e material da escola.

Já na faculdade, escolhi trilhar os caminhos da docência, decidi ser professora. Desde a infância, o ambiente escolar me cativava de tal forma que era um sonho estar dentro de uma escola. Apesar de presenciar a desordem no Ensino Fundamental e Médio e a dificuldade de meus professores para ensinar, quis continuar no meio escolar, por isso a escolha do curso de Letras.

Na universidade, tive muitas oportunidades de crescimento intelectual que creio soube aproveitá-las muito bem, pois tive mestres que contribuíram sobremaneira com meu desenvolvimento. Contudo, outros desafios apareceram, visto que sempre sentia falta de algo a mais nas aulas. Como o conhecimento espírita já fazia parte de minha vida, enxergava a existência pela ótica da eternidade, da reencarnação enquanto oportunidade bendita de evolução. Então, tudo que estudava, associava com os conhecimentos que a Doutrina Espírita nos revela sobre a vida e as leis eternas. Fazia associações e descobertas interessantes, mas não tinha ninguém com quem compartilhá-las, não podia dividi-las com meus colegas e professores, pois estaria trazendo aspectos “religiosos” para a sala, o que na academia parecia ser e ainda o é inaceitável. Como sabemos, o Espiritismo não é apenas religião. Kardec em sua magna pedagogia nos ensinou a encarar os fatos à luz da razão, o que meus colegas não iriam compreender e aceitar com uma simples explicação.

Nesse ínterim, surgiu em mim um desânimo de estar em um espaço no qual não podia expressar minhas ideias, tinha receio de ser julgada por trazer discursos religiosos. Queria levar para meus estudos acadêmicos, a associação que fazia com os conhecimentos espíritas já adquiridos, contudo, me sentia desencorajada. Era uma sensação de incompletude, como se na universidade, eu não pudesse ser um Espírito, apenas um indivíduo que nasceria e finalizaria sua existência com o véu da morte, tendo que viver e estudar apenas na materialidade do mundo, dos seres e das coisas. Apesar da impossibilidade de ser a estudante que eu aspirava, nunca deixei apagar em mim aquela chama de trazer para a academia as contribuições do Espiritismo. Me graduei, e antes de receber o diploma iniciei o magistério. Estar em contato com outras pessoas em um ambiente de ensino-aprendizagens me humanizava. Por ser a sala de aula um espaço em que podia compartilhar conhecimentos, de alguma forma me sentia mais Espírito, não apenas um corpo pensante, mesmo não podendo trazer a visão espírita para minhas aulas.

Resolvi então, apesar dos inconvenientes da graduação, continuar meus estudos na pós-graduação. Como já disse, o ambiente escolar sempre foi para mim um local maravilhoso, e não podia me distanciar dele. Mantinha também a esperança de poder, de alguma maneira,  trazer para a academia um pouco do que havia aprendido com o Espiritismo. Realizei um projeto de pesquisa de mestrado voltado para a formação de professores para a avaliação da aprendizagem. Encontrei nessa linha de pesquisa uma maneira de humanizar as práticas pedagógicas, trazendo perspectivas mais humanas e subjetivas. Ainda nessa época, continuei com as leituras em Psicologia Espírita, tive a coragem de começar a estudar a série psicológica de Joanna de Ângelis, livros que desejava há muito tempo estudar, no entanto, sentia a necessidade de mais amadurecimento para poder me debruçar em seu estudo.

Em minhas idas à livraria, me deparei com o livro Refletindo a Alma, do Núcleo de Estudos Psicológicos Joanna de Ângelis. Esta obra tem o objetivo de esclarecer os aspectos teóricos da psicologia utilizados por Joanna de Ângelis. Tem a participação de profissionais da área de psicologia e psiquiatria, contando igualmente com a colaboração da própria autora espiritual. Graças à esta obra, foi possível retomar os estudos da série, como também partiu daí o pontapé inicial para muitas descobertas e encontros.

Meses depois, ministrando aulas de língua francesa, conheci uma aluna que veio a se tornar uma amiga muito especial, Stella Maris. Quando descobri que a mesma cursava Psicologia na universidade, é claro, tive que compartilhar de minhas leituras com ela.

Nossas conversas eram longas e prazerosas, e foi delas que surgiu a ideia de começarmos a estudar em grupo o Refletindo a Alma e a série psicológica de Joanna de Ângelis. Apresentamos a proposta para alguns amigos em setembro de 2012, e em novembro do mesmo ano, já contávamos com um grupo de seis pessoas. As reuniões aconteciam aos domingos no centro de convivência do campus Umuarama localizado na Universidade Federal de Uberlândia. Frequentavam e ainda frequentam nossos encontros alunos, professores e técnicos de diversos cursos da universidade, pessoas de outras universidades, bem como aqueles que, não tendo nenhum vínculo acadêmico, vem motivados para estudar em grupo a série psicológica.

Nos primeiros encontros sentia uma euforia imensa, nada me impedia de estar lá, as tardes do domingo eram para mim preciosíssimas. E foi de baixo da sombra de uma árvore frondosa que pessoas muito especiais foram chegando, trazendo suas amizades e riquíssimos conhecimentos. Foi também a partir desses estudos que pude compreender a grandeza da proposta educacional apresentada por Joanna de Ângelis e desenvolvida e divulgada por irmãos, espíritos encarnados e desencarnados.

No livro Refletindo a Alma, um dos autores, Cláudio Sinoti, no segundo capítulo intitulado Uma psicologia com alma: a psicologia espírita de Joanna de Ângelis, discorre sobre os fundamentos e pilares da Psicologia Espírita. O autor nos esclarece que, tendo como princípios base os da Doutrina Espírita, (quais sejam a crença em Deus, na imortalidade da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, na reencarnação e na pluralidade dos mundos) Joanna, tomando-os como ponto de partida, estabelece pontes com as variadas correntes da Psicologia. Suas obras são verdadeiros tratados científicos, nelas há correlações que vão além da ciência psicológica, percorrendo um caminho transdisciplinar entre as várias áreas do saber à luz do Espiritismo.

Com base nisso e no estudo aprofundado da série, Cláudio Sinoti formula os pilares para a Psicologia Espírita. Para tanto, o autor nos deixa claro a sua não pretensão de esgotar a gama de conteúdos ofertados pela autora espiritual, tendo, não obstante, o intuito de didatizar sua proposta. São eles:

  1. Aprender a se Conhecer
  2. Aprender a Viver
  3. Aprender a Ser
  4. Aprender a Amar

Esses pilares resumem a necessidade educacional do ser humano. E, uma vez que ainda nos encontramos nos primeiros degraus da escada evolutiva, carecemos de desenvolver em nossos espíritos as referidas aprendizagens. Elas se complementam e são interdependentes tendo como ápice a aprendizagem do amor, sentimento divino e nobre, com manifestações ainda grosseiras por parte da humanidade terrena.

Ao estudar esses pilares, fui surpreendida por uma constatação. Me deparei com a existência de uma proposta educacional mundial que muito se assemelha à da Psicologia Espírita. Tal descoberta ocorreu durante a revisão bibliográfica de minha dissertação de mestrado. Jacques Delors, no Relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, feito a pedido da UNESCO, assevera que cabe à educação dar, de alguma maneira, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, igualmente, uma bússola que permita navegar através dele.

Trata-se de uma concepção mais ampliada de educação que vai além da mera retenção de informações e conhecimento, pois busca o desenvolvimento, reanimação e fortalecimento do potencial criativo do educando, de forma a revelar o tesouro escondido em cada um de nós.  Assim sendo, para que responda às suas missões, é necessário, segundo Delors, que a educação se guie por quatro pilares:

  1. Aprender a Conhecer
  2. Aprender a Fazer
  3. Aprender a Viver Juntos
  4. Aprender a Ser

Segundo o autor, esses pilares suplantam a visão puramente instrumental da educação de saber-fazer com fins de ordem econômica, passando a considerá-la em todo a sua plenitude, culminando no aprender a ser.

É possível reconhecer nesta proposta educacional da Unesco para o século XXI, o ser humano sendo considerado na sua integralidade, não apenas aquele que necessita exclusivamente acumular informações a fim de fazer provas e desempenhar funções.

Ao compararmos ambas as propostas, podemos identificar três diferenças. No pilar segundo a Psicologia Espírita, temos o Aprender a se Conhecer, aprendizagem que envolve apenas o indivíduo consigo mesmo. Nos pilares de Delors, a partícula reflexiva “se” não está presente, sendo então uma aprendizagem mais geral que pode, por exemplo, incluir a do autoconhecimento. Outrossim, de acordo com Delors, o Aprender a Conhecer pressupõe o aprender a aprender. Dentre o que é necessário para aprender a aprender, está o olhar para si mesmo, a descoberta de como eu aprendo, o que mais me interessa e desperta minha curiosidade. Pode-se ver aí, portanto, um laço direto com o autoconhecimento, o que liga os dois pilares, o da Psicologia Espírita e o da educação para o século XXI.

O Aprender a Fazer de Delors aparece em Joanna como o Aprender Amar. A terceira diferença está no pilar relacionado a aprendizagem do viver. Em Delors o pilar aparece como Aprender a Viver Juntos, já em Joanna, como Aprender a viver. A partícula “juntos” diferencia os pilares, apesar disso, podemos considerar que a aprendizagem do viver embute em si mesma o saber conviver com os outros, sejam eles, os humanos, a fauna e a flora.

Os pilares apresentados por Delors e Sinoti envolvem uma complexidade e profundidade muito bem elaboradas e desenvolvidas, como não é o nosso objetivo aprofundar em suas análises, faço o convite ao leitor amigo para conhecê-los e estudá-los. O nosso propósito com essas pequenas reflexões é apenas o de compartilhar um pouco de nossas descobertas.

A surpresa da referida constatação me fez refletir muito. Como poderiam ser tão semelhantes? O autor que sugere os pilares da Psicologia Espírita tinha conhecimento dos pilares de Delors? Motivada por essa curiosidade busquei o contato de Cláudio Sinoti. Enviei-lhe um e-mail relatando-lhe a descoberta e também apresentando o nosso grupo de estudos que tinha como base a obra da qual ele é um dos autores.

Sua resposta foi rápida. Sinoti disse que apesar de já ter ouvido Divaldo Franco, médium que psicografa as obras de Joanna, citar o relatório da Unesco em suas palestras, não havia ainda estudado a obra, como também não se recordou conscientemente das palestras de Divaldo ao sugerir os pilares da Psicologia Espírita. Sinoti ainda afirmou estar impressionado com a semelhança e pela evidente demonstração de encadeamento entre o conhecimento acadêmico e espiritual, a despeito de estar certo da possibilidade de intuição da equipe espiritual que guia e dirige os seus trabalhos a fim de possibilitar o cumprimento dos objetivos dos estudos.

Coincidência ou não, vemos aí uma evidência de que o plano espiritual e material tem trabalhadores que unem esforços para que as diversas áreas do conhecimento que se desenvolvem na superfície da Terra percorram caminhos que conduzam o ser humano à conquista de sua plenitude.

Além do mais, pelas suas semelhanças, ainda depreende-se que ambas as propostas educacionais tem como princípios o Evangelho do nosso Cristo Jesus, e que Ele, como educador supremo do nosso globo, permanece como fiel timoneiro no leme da embarcação terrena, mas em constante busca de colaboradores, que mesmo de última hora, estejam disponíveis para trabalhar na vinha do estabelecimento do Seu reino de Amor.

Referências:

DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo: Cortez, 1998.

FRANCO, D.; DE ÂNGELIS, J. Refletindo a alma – a psicologia espírita de Joanna de Ângelis. Salvador, BA: Livraria Espírta Alvora Editora, 2011.

P.S.:A escolha da pintura de Michelangelo, A criação de Adão, se deu pelo fato de ela nos remeter a ideia de que fomos criados à imagem e semelhança divina, como também pelo fato de ela representar a conexão entre o divino e o terreno. Há pesquisadores que veem os traços anatômicos do cérebro humano, mais especificamente nos traços que envolvem “Deus” retratados na pintura. Tal constatação se fez, dentre outros fatores, com base em evidências de que Michelangelo era um estudioso da fisiologia humana.

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(Bio)Dança Cósmica

 

Somos todos corpos celestes dançando a Vida
no cenário sem fim do multiverso
Uns com os outros
Uns pelos outros
Absolutamente sós
E sempre acompanhados

E nesse espetáculo infinito somos levados e trazidos
pelo empuxo desses outros maravilhosos seres esféricos
E a cada encontro o sopro suave do afeto-gravidade
nos leva a mudar nossa trajetória
Milímetros que seja
E isso faz toda, toda a diferença

E há alguns que são tão grandes, tão luminosos,
Que não podemos evitar de dançar por eras ao seu entorno
Bebendo da seiva de suas palavras-atos-raios
Transformando nossa própria natureza e povoando-a de novas formas de vida
Descobrindo-nos a nós mesmos,
Sem fim

Há outros que decidem por nos fazer companhia
Bailar ao nosso entorno e iluminar as nossas noites
Porque simplesmente somos
E porque simplesmente são

E cada ser é, em todos os sentidos, um mundo
E cada mundo é, em todos os sentidos, um ser

Maravilhados podemos perceber
Que sempre há mais a ver do que jamais poderá ser visto
Mais a fazer do que jamais poderá ser feito
Mais a trocar do que jamais poderá ser trocado
Mais belezas e músicas a sentir do que jamais poderão ser choradas
Mais movimentos e emoções do que nossa humilde gira jamais poderá expressar
Além,
Sempre além

Somos ainda mais que poeira cósmica ou estelar
Somos o próprio cosmos e as próprias estrelas!

E dançando, somos.

Porque-os-Pássaros-Migram

Ouvindo o precioso silêncio – Fabiana Soares

Em busca do silêncio precioso, para finalmente tentar acalmar os meus anseios, e tentar de alguma forma sair, nem que seja por instantes, da roda incessante do vício. Roda dos mesmos erros, da repetição dos comportamentos aprendidos e desenvolvidos como estratégia de sobrevivência, mas que hoje não são mais necessários… Assim consigo respirar, me distanciar um pouco do passado, voltar um pouco do futuro, e meio atordoada ainda, no meio do caminho, flutuando, consigo ter um vislumbre do que sou. Deste momento presente. Do que posso fazer agora e do que posso ser.

Consigo ter consciência do meu padrão de apego, de expectativas, de projetar meus anseios e necessidades de resolução no outro. Percebo que mesmo mais consciente, ainda espero que a presença de outro possa ser o botão do “play”, a alavanca que vai me dar força pra seguir, fazer diferente, pra ser quem eu sou, pra fazer o que vim fazer… E me vem muito nítido, que tudo está em mim. Que esse outro amoroso, compreensivo, calmo, cheio de paz e acolhimento está em mim – esteve aqui o tempo todo.

Ele é bem sucedido, criativo, assertivo. Ele é livre e comprometido. Ama sem querer possuir. Sem condições. Não precisa de provas ou demonstrações. É seguro de si, sabe que é amado, sabe de seu valor. Sabe que não será julgado, e se for não se ofende, sabe que tudo tem seu tempo. Tudo e todos.

Esse outro compreensivo e amoroso que sempre busquei, na verdade sempre existiu dentro de mim, e eu sempre o rejeitei por julgá-lo fraco e impotente. E o tempo todo ele esteve ali… paciente, sem se revoltar, esperando que eu despertasse, que eu amadurecesse e, enfim, estivesse pronta. Ele nunca desistiu de mim. Sempre teve esperanças e, mais que isso, a certeza de que eu conseguiria. E mesmo que por vezes eu tenha andado na contramão, ele, paciente, me acompanhou de perto, segurando minha mão. Às vezes me seguindo de longe e observando, outras vezes tranquilo, “em casa”, esperando quando não podia me acompanhar em minhas empreitadas. Mas sempre ali, sempre aqui. Porque somos um, e não se desiste de si mesmo.

Por mais que existam vários “eus”, e um por vez querendo tomar frente e comandar por si, só pode haver equilíbrio quando esses “eus” trabalharem juntos e unidos – uns pelos outros, compreendendo a importância que cada um tem. Em determinado momento, um deverá tomar a frente, e os outros harmoniosamente apoiam, mais atrás. Em outro momento, outro “eu” toma a frente, e assim por diante, como uma revoada, um balé perfeito, sincronia, confiança, união. Um toma frente enquanto o outro descansa.

Só assim é possível ser feliz: sabendo que somos um universo de “eus”, e que precisamos nos harmonizar. Ter consciência que talvez ainda não seja possível conquistar de imediato essa paz duradoura, pois vivemos uma busca que não tem fim. Uma etapa termina e outra fase se inicia. Muitos “eus” esperando sua vez de serem reconhecidos, integrados. Inclusive aqueles “eus” revoltados, aquela criança negligenciada, aquele idoso abandonado, aquele adulto mal sucedido, aquele adolescente medroso. Eles precisam de reconhecimento, e temos todas as ferramentas e todos os recursos para auxiliá-los dentro de nós. O terapeuta amoroso, o cuidador de idosos, o pedagogo, o pai e a mãe equilibrados, enfim, vários especialistas. E o mais importante:
O melhor e único especialista em você, é você mesmo.

morte-e-vida

Desencarnação, começo ou fim? – Silvana de Jesus

Eu já morri umas três vezes nessa vida.

Quando eu tinha 11 anos, minha mãe se mudou de São Paulo, capital, para Belo Horizonte, bairro Alvorada. Eu “perdi” tudo: minha escola, minha cidade natal, meu bairro, meus amigos, e meu cachorro, que não podia vir na mudança porque minha mãe não tinha dinheiro para pagar a mais pelo transporte de animais. Naturalmente, eu detestei BH desde o primeiro dia. Nesta experiência, o mais difícil foi largar o meu cachorro para trás e uma tia que eu gostava muito e nunca mais vi e ter que viver em um lugar que era pior do que o anterior (em todos os sentidos, na visão de uma menina de 11 anos).

Aos 36 anos, eu tive a oportunidade de morar fora do Brasil, estudando um ano na Alemanha. Foi uma oportunidade um tanto quanto repentina, que resolvi agarrar sem pensar muito. Na minha primeira semana na Alemanha, eu pensei: “morrer deve ser exatamente isso”. Eu cheguei em um ambiente totalmente estranho. Estava nevando e eu não falava alemão (me comunicava em inglês com as pessoas da universidade e para andar na cidade, alguém tinha que ir comigo… até que aprendi a apontar para pedir as coisas nas lojas).

Raramente paramos para pensar que grande parte do que fazemos no dia a dia é quase automático; não precisamos pensar nem gastar muita energia para pegar um ônibus, pedir um pão na padaria; ir de casa para a escola; ligar o ventilador (no caso da Alemanha, o aquecedor), pegar um livro emprestado na biblioteca; pedir um suco na lanchonete, abrir uma conta no banco. E, de repente, eu estava em um lugar em que eu não sabia fazer absolutamente nada disso. Tudo era novo e eu tinha que aprender, tinha que pensar e gastar energia para fazer as menores coisas. Era difícil pegar um ônibus de casa para a universidade, mesmo porque eu nem sabia direito onde eu morava. Eu não sabia nem que sapatos usar, porque nenhum dos meus servia para andar na neve.

Além disso, no Brasil, eu estava a todo vapor no meio de projetos na Casa Espírita e na Universidade, e, embora os amigos me dessem notícias, eu simplesmente não estava mais lá; não fazia mais parte deles. O mais difícil desta experiência foi ter que aprender a fazer tudo de novo, as pequenas coisas do dia a dia; e a sensação de ter sido arrancada da minha vida e jogada em outro mundo totalmente novo.

E aos 38 anos, eu decidi me mudar de BH e ir trabalhar e morar em outra cidade. Pelo menos dessa vez eu falava a mesma língua. E o mundo externo era bem semelhante, já que eu estava no mesmo Estado. O mais difícil desta experiência foi ter deixado todos os meus amigos e familiares para morar em um lugar onde eu simplesmente não conhecia ninguém.

Obviamente, estas três “mortes” também tiveram ótimas experiências; depois que passa o momento difícil de adaptação, um mundo novo se abre a sua frente: novos lugares, novos amigos, novos costumes, novas experiências. A mudança para BH facilitou muito a vida da minha mãe; eu conheci minha melhor amiga da juventude; participei de um grupo maravilhoso de jovens católicos até parar no Lares Unidos, onde conheci a Doutrina e pessoas maravilhosas que marcaram minha vida. Na Alemanha, tive a oportunidade fantástica de ver a natureza congelada e me encantei com a amorosidade do que eu chamo de “meus” alemães; além de ter sido uma experiência acadêmica, financeira e turística muito rica. Em Uberlândia, eu pude me dedicar à minha profissão, aprender muito com meus alunos; estabilizar minha vida financeira e investir na minha nova paixão: a psicologia.

Isso tudo é para refletirmos que a morte é isso: uma experiência de perdas e ganhos. É o fim de um ciclo que se fecha e o começo de um ciclo que se inicia com novas e ricas experiências; é o recomeço de aprendizagens que ainda não estão completas. É a dor de deixar para trás o que já conhecemos, o conforto e a segurança, os vínculos e os afetos, as situações e as pessoas, as posses e os títulos; enfim, deixar tudo para trás… para recomeçar. É a alegria de (re)encontrar novos amigos; de aprender novas coisas; de conhecer novos mundos (físicos, emocionais, mentais). É o prazer indescritível de ir além de si mesmo, de crescer, de renovar-se. Claro que a desencarnação é ainda mais “radical” do que mudar de país ou de cidade, porque, afinal, você pode ir amanhã sem aviso nenhum… sem tempo para “fazer a mala” ou dar festa de despedida (a festa de despedida é o seu enterro e você vai estar lá, sem estar lá…).

Mas, ao final, talvez o mais importante seja estar “preparado”, que nesse caso significa estar consciente de que essa “viagem” vai acontecer a qualquer momento. E estar com a consciência tranquila de que você aproveitou o máximo aqui, para crescer e aprender, amar(-se) e colaborar, para que o pós-morte, mesmo com todas as suas novidades (já pode ir pensando na lista “o que fazer depois de morrer”), seja um recomeço do propósito maior – crescer e aprender, amar(-se) e colaborar; seja em qual canto do Universo você estiver.

O Espírito é o ser imortal e inteligente da criação. Seu destino é a plenitude e não podemos aceitar que o medo impeça nossa marcha. A mesma coragem de caminhar aqui deve nos motivar a caminhar no além. Nosso destino é a felicidade. E não podemos nos contentar com nada menos que isso! Boa vida e boa morte para você!

 

43-As-Parábolas-de-Jesus

As Histórias de Jesus – Silvana de Jesus

 

 

“Poder-se-á reconhecer nas parábolas de Jesus a expressão fenomênica das
palavras, guardando a eterna vibração de seu sentimento nos ensinos?
-Sim. As parábolas do Evangelho são como as sementes divinas que
desabrochariam, mais tarde, em árvores de misericórdia e de sabedoria
para a Humanidade…”
(Emmanuel, O Consolador, questão 290)

 

 

Jesus é com certeza a figura mais marcante da história da humanidade. Tem muitos nomes – Jesus, o Cristo, o Messias, o Ungido, Emmanuel. Tem muitos títulos – Mestre, Irmão, Mensageiro Divino, Salvador, Médium de Deus. E muitas identidades – Filho do Homem, Filho de Deus, o Caminho-Verdade-Vida; a Luz do Mundo, A porta, o Médico das almas, o Servo de todos. Tem muitos mistérios – afinal, quem era ele? Como cresceu? Como realizou tantos milagres? Onde foi parar o seu corpo? Qual era a sua missão?

Sem dúvida, o que o imortalizou foram as suas ações e os ensinamentos que delas emanaram – é necessário nascer de novo; ora ao teu Pai em segredo; levanta-te e anda; vós sois deuses; bem-aventurados os humildes; perdoa sete vezes setenta vezes; vá e não peques mais; esta é a lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

E apesar de tantos estudos e obras publicadas sobre essa admirável personalidade, ainda sabemos muito pouco sobre Ele. Ainda entendemos muito pouco dos seus mistérios e dos seus ensinamentos. Ainda não sabemos extrair as lições profundas das suas “simples” estórias, nem entender a amplitude das suas lições, e menos ainda, praticar a lei maior do Amor. Afinal, por que suas parábolas nos encantam até hoje?

 

Os dicionaristas (…) definem a parábola (…) como sendo uma alegoria sob a qual se oculta uma verdade importante, ou seja, exposição de um pensamento sob forma figurada. Trata-se, portanto, de uma “narração alegórica na qual o conjunto dos elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”. (…) O escritor e pesquisador Haroldo Dutra (…) afirma que o conceito de parábola não se restringe à narrativa alegórica que esconde uma realidade superior. Também existe parábola, ou seja, ensinamento moral de forma alegórica, em comparações (“simples como as pombas e prudente como as serpentes”), provérbios (“quem com ferro fere, com ferro será ferido”) ou em simples palavras (“vigilância”). (O universo maravilhoso das parábolas, p. 11)

 

Desta forma, convidamos a todos a mergulhar neste oceano maravilhoso das parábolas de Jesus; textos tão antigos na letra e tão atuais no conteúdo, já que, como aponta Emmanuel, são sementes divinas plantadas pelo Cristo para alimentar a humanidade por milênios, até a sua completa regeneração.

Sejam as mais conhecidas – O bom samaritano, O semeador, O filho pródigo, A ovelha perdida, As dez virgens, Os trabalhadores da última hora, O grão de mostarda, O fermento, Os talentos, A porta estreita; ou as menos conhecidas – Os maus vinhateiros, A figueira seca, Diante do juiz, A geração de hoje, O espírito imundo, As bodas, entre tantas outras, todas trazem ensinamentos que iluminam a mente e aquecem o coração. Não as aproveitar é como desperdiçar os talentos que nos foram dados, ou ser como aquele homem imprudente…

 

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.
E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia;E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.”
Mateus 7:24-27.

 

Coração

Amar e Ser Amado – Silvana de Jesus

Há cerca de 2000 anos, o Mestre nos contou o segredo da lei divina: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Ainda hoje nos debatemos para entender e praticar essa lei, por tantas vezes mal compreendida.

Embora raramente percebamos, existe uma conexão direta entre as leis físicas e as leis morais, aspecto que o tripé ciência-filosofia-religião da Doutrina Espírita nos ajuda a compreender. Estudando anatomia, percebi que o movimento do nosso coração pode nos ajudar a entender o “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Todos sabemos que o papel do coração é levar sangue oxigenado para as células de todo o corpo e recolher o CO2, produzido no metabolismo celular, que precisa ser eliminado. Esse processo é vital para a existência das células, sendo que além do oxigênio, o sangue leva também nutrição e hidratação para todas as células.

A imagem nos mostra que o coração possui vários vasos que o envolvem formando como que uma coroa ao seu redor. Esses vasos servem para levar o sangue oxigenado para o próprio coração e para recolher o gás carbónico do próprio coração. Geralmente, esquecemos que o coração leva o sangue para todo o corpo, mas ele precisa também distribuir o sangue para ele próprio; sem atender a si próprio, seria impossível cuidar do resto do corpo.

Fazendo uma metáfora desta situação, pensemos no eu como sendo o coração, nos outros órgãos como o próximo e no sangue como Deus. Deus, e também o Amor que é um dos seus atributos, é a seiva e a energia que sustenta a Vida. Ele é o alimento, o oxigênio e a hidratação do Espírito. O coração, ou seja, o eu, é o instrumento pelo qual essa seiva passa e é irradiada para o mundo exterior; mas, se essa seiva não passar também pelo mundo interior, logo haverá morte e não vida. Assim como o coração precisa se alimentar de sangue, nós também precisamos nos alimentar de amor. Não podemos dar aquilo que não temos; não podemos amar se não temos amor; não poderíamos amar se não fossemos amor (mas nós somos, ele é a nossa essência).

Assim como o sangue é essencial a vida, Deus/o Amor/a Energia divina são também essenciais para a vida do Espírito, sem os quais não existiríamos. Aproveitando esta metáfora, pensemos no nosso dilema entre “amar” e “ser amado”. Em geral, acreditamos que saber amar é mais importante do que ser amado, porque pensamos que focar em “ser amado” é porta para o egoísmo. Mas, e se não fossem duas coisas separadas e sim apenas uma, como dois lados de uma mesma moeda?

Simplesmente porque para amar precisamos ser amados antes. Pensemos no Amor como uma energia que damos e recebemos… como vamos dar se não temos? E aí está o ponto x… nós somos amados primeiro, nós recebemos primeiro e não há nenhum ser vivo que não receba Amor desde que foi criado; porque a fonte do Amor é Deus, e Deus ama a toda a sua criação antes mesmo que ela tenha consciência de si própria.

Então sim, para amar, precisamos ser amados, porque se Deus não dos der o Amor da Sua Energia Divina, não teremos nada para ofertar. Podemos acrescentar ainda que dar e receber Amor são duas faces da mesma moeda, porque para receber amor eu preciso ser capaz de reconhecê-lo, de senti-lo, de percebê-lo em mim, ou seja, de movimentá-lo no meu mundo interior, o que só é possível quando eu aprendi a amar…

“Quem deseja o amor, não deseja apenas uma pessoa concreta que (o)a ame e que ela(e) possa amar. Em última instância, está no desejo de amor o pressentimento de um amor eterno, que é mais do que amar e ser amado. É o desejo de SER amor. Quem é amor, participa da realidade do absoluto.”
(Do livro “Seja fiel aos seus sonhos, p. 58)

Oceano

Você acredita no Oceano? (Thaíke Augusto)

Certo homem vivia numa aldeia situada na região central de um vasto continente. Ali, os contatos com outras comunidades e povos eram raros. De quando em quando surgiam viajantes trazendo notícias e produtos de outras terras, mas nada o fascinava mais que as histórias sobre o Oceano e a concha azulada que um viajante lhe deu. A certa altura de sua vida, decidiu buscá-lo por si mesmo. A princípio, foi desencorajado pela vasta maioria da aldeia: “Oceano?! Você acredita nisso? Histórias de loucos, insanos, imaturos! Quanta bobagem! Um lago sem fim, que não se atravessa a nado? Salgado como o suor, ainda por cima?! Com criaturas místicas e gigantescas? Eu acredito é no chão seco em que pisamos, nos córregos estreitos e nos pequenos rios doces que saciam bem o suficiente a nossa sede.”
Ainda que faminto em sua dimensão social, o homem manteve-se firme em seu propósito. E, certo dia, iniciou sua viagem. E de repente os mesmos passos no mesmo chão já não visavam o mesmo fim.
A jornada foi longa no tempo, no espaço e na mente. Foi difícil, como só a Vida pode ser. Foi rica em imprevistos, desastres, descobertas, tropeços, ferimentos, desistências e emoções arrebatadoras. Encontrou-se com viajantes e sonhadores semelhantes a ele. Compartilhou caminhos, esperanças, medos, noites e dias. Ouviu e viveu histórias inacreditáveis. Em essência, no entanto, sua jornada foi solitária. Mesmo quando acompanhado. Quando a espera do encontro parecia insuportável, mergulhava fundo nos rios e lagos que encontrava pelo caminho. Mais vezes do que pôde contar encontrou pessoas que quiseram guiá-lo para lugares ainda mais fundos no continente, para longe do Oceano dos dez mil nomes. Os mais sedutores entre estes falavam do Grande Lago com os mais intrincados conhecimentos sobre a ciência de suas águas. E nenhum deles, no entanto, havia de fato molhado os dedos dos pés em suas praias.
Um belo dia, ao pôr-do-Sol, sentiu o cheiro da brisa marítima. E pisou descalço o chão de areia. Banhou-se em êxtase nas águas que encontrou à frente. Engoliu-as, tossiu, ardeu-se, riu-se e chorou como nunca antes. Dobrou-se à majestosa força das ondas e dissolveu-se em instantes eternos no ritmo pacífico-enérgico do Mar. No sopro incessante das horas e dias, mergulhou, explorou, navegou e encontrou criaturas únicas, descobrindo que as moedas de ouro das histórias não se comparavam à mina infinita que se desenrolava diante de seus sentidos. Após muito e pouco tempo, por saudade, decidiu voltar a sua aldeia. Queria ser, ele, como os raros viajantes contadores e cantadores das histórias que o inspiraram desde sua juventude.
Cedo descobriu, em seu retorno, que a música de suas palavras não era bem vinda para todos os ouvidos. E que as cores de sua narrativa não atraía tanto os olhares. E redescobriu que os quilômetros continente adentro só intensificavam a surdez, a cegueira e o ceticismo dos povos que encontrava. Resignou-se e seguiu, falando a tantos quantos quisessem ouvir. Viu a si mesmo em muitas crianças de olhos curiosos e esbugalhados. Distribuiu sonhos em formas de conchas. E para aqueles que conheciam de cór o sabor de suas próprias lágrimas, o Oceano salgado era possível, magnífico e real. Entre os sensíveis, encontrou muitos que acreditaram e compartilharam de sua paixão. Entre os pensantes, ainda guarda o hematoma das pedradas.
Num dia chuvoso, imprimiu novas pegadas onde outrora estiveram as primeiras. Estava em sua terra natal, e nada parecia diferente, e nada parecia igual. E com os olhos igualmente chuvosos, reuniu o povo e narrou emocionado sua aventura e seus dias no Oceano. Silêncio. Risos. Muitos caçoaram de suas histórias. Estranharam as conchas em suas mãos, mas, para eles, elas não provavam o Mar. Alguns se retiraram com cusparadas ao chão, outros com olhares piedosos e/ou sombrios. Alguns permaneceram em silêncio, outros simplesmente se sentiam gratos por seu retorno com o enterro da saudade. Mas o que ele podia fazer? Não poderia carregá-los até o Oceano. Apenas convidá-los a iniciar suas próprias jornadas.
Dias se passaram enquanto o homem roia as sobras da saudade. Mais importante, enquanto meditava profundamente os significados de sua jornada em face dos céticos melancólicos em todos os lugares e em sua própria aldeia. E percebeu que se passasse muito tempo ali, talvez pudesse começar a questionar a realidade de suas vivências. Talvez pudesse começar a questionar-se razoavelmente que não faria sentido algo assim tão imenso, rico e profundo. Tudo o que sempre conheceu enquanto crescia era terra, mesmo. Talvez aquelas águas em que navegou e diluiu-se não passassem de um lago excepcionalmente grande e agitado. Afinal de contas, ele não pudera percorrer toda sua extensão. Talvez o que ele acreditava que fosse o Oceano Infinito terminasse ali mesmo, alguns metros além do limite dos seus olhos. Talvez, ainda, seu desejo intenso de encontrar um sonhado Oceano tivesse lhe pregado peças. Talvez aquelas frutas exóticas que experimentara tivessem lhe induzido num estado delirante e alucinatório enquanto chapinhava por poças rasas de água da chuva e lama… Talvez… Talvez…
Atormentado por estes pensamentos, adoeceu. E dormiu noites e dias de um sono irrequieto e sombrio. Até que certo dia, mergulhado em suas memórias, lembrou-se da força das ondas. Lembrou-se do balanço do mar e da suave náusea. Lembrou-se do cheiro e da ardência do sal. Lembrou-se do frio ao anoitecer. Lembrou-se da sensação tátil da barbatana daquele mamífero marinho e da música alegre que ele entoava a nados e pulos. Lembrou-se do assovio do vento e da cacofonia das gaivotas. Lembrou-se do calor da areia e reviu as cicatrizes dos corais em seus dois pés. Lembrou-se, enfim. Lembrou-se. E soube que aquelas vivências do Oceano lhe eram mais reais que a própria realidade do chão firme em que repousava. E sentiu-se bem de novo. E, breve, despediu-se da aldeia explicando que tinha muitas histórias e vivências a compartilhar. Perguntaram-lhe uma última vez se valia a pena ir embora e dar sua vida por algo que ele apenas acreditava. Ainda mais para falar a muitos que nem queriam ouvir. E ele apenas respondeu: “Algo em que acredito?! Eu não acredito. Eu sei.”

Oceano

Somos Todos Um

Tudo é uma coisa só.

Uma coisa só… é tudo.

Somos todos Um.

E Um é Todos.

Todo saber é Um.

E em todas as coisas se lê a Verdade de tudo.

Estamos fadados à Felicidade.

Por esta Verdade estou disposto a morrer.

Por esta Verdade estou disposto a viver.

Deus fora,

Deus dentro.

E todos nós juntos.

Todos nós. Todos.

Juntos.

Eternamente.

Ternamente.